ALMA ACREANA > Isaac Melo

"OUÇAM, ESTÚPIDOS DE GRAVATAS E PALETÓS, SENHORES DO PETRÓLEO E DA BUFUNFA, NO FIM REINARÁ A JUSTIÇA, O MUNDO SERÁ DAQUELES QUE AMAM, ISTO É, DOS POBRES E ESFARRAPADOS, QUE UM DIA VÓS EXPLORASTES." I.M.

ALMA ACREANA > Isaac Melo

"OUÇAM, ESTÚPIDOS DE GRAVATAS E PALETÓS, SENHORES DO PETRÓLEO E DA BUFUNFA, NO FIM REINARÁ A JUSTIÇA, O MUNDO SERÁ DAQUELES QUE AMAM, ISTO É, DOS POBRES E ESFARRAPADOS, QUE UM DIA VÓS EXPLORASTES." I.M.
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Terra Blog

Arquivo de: Maio 2008

31.05.08

Para sempre J. G. de Araújo Jorge

Neste poema o Poeta do Povo e da Mocidade, o poeta que encantou multidões no Brasil, quase que em forma de desabafo, recorda a sua saudosa terra natal, TARAUACÁ...

" Canto Do Poeta Menor "



Sou o poeta menor, o trovador humilde,
que nasceu nesse Brasil grande, numa vila sem nome,
em meio às árvores, aos pássaros, aos rios e jacarés
porque o resto não há.

Não me recebem. Estão sempre em reunião importante.

Estou na rua, com o povo, que "a praça é do povo
como o céu é do condor",
já cantou o grande Poeta.

Não trago quatrocentos anos na sacola,
não sou de ferro, não sou de bronze,
não desci orgulhoso da alta montanha
falando como Zaratustra,
- sou um poeta, de barro,
como qualquer homem...

Não cheguei de Ita, com alma palaciana,
disposto a conquistar a grande capital,
não invadi os jornais e suplementos
construindo "igrejinhas" sem fieis.

Sou o poeta menor, o poeta humilde, sem história,
que nasceu nesse Brasil grande, numa vila sem nome,
pra lá, muito pra lá...
- a vila de Tarauacá.

Poeta sem brasão, sem orgulhos, sem rodinhas,
apátrida entre irmãos,
poeta nú e sozinho, com sua poesia,
pelos quatro cantos de sua terra
misturado com o povo.

Sou o poeta antigabinete ministerial
sem rondós e sem falsas luxúrias,
não sou amigo dos reis,
sou simplesmente o poeta da rua,
como um violeiro e sua viola,
como um cego e seu realejo...

Quando toca a minha poesia
a criançada vem correndo para ouvir,
os trabalhadores param o serviço
e comentam,
as empregadas e os transeuntes fazem roda.
as moças se debruçam nas janelas
e ficam cantarolando.

Sou o poeta menor. Não me recebem.
Estão sempre em reunião importante.

Não faz mal. De mãos dadas com o povo,
como em noite de lua
faço ciranda na rua.


(Poema de JG de Araujo Jorge - do livro
" Cantiga do Só " 2a edição 1968)

 

"Em breve no ALMA ACREANA uma biografia de J. G. de Araújo Jorge, o nosso ilustre poeta tarauacaense"

30.05.08

Angelina Gonçalves, a força da mulher acreana

categorias: Acre

A mulher acreana, antes de tudo, parafraseando Euclides da Cunha, é uma forte. Ela foi seringueira, mulher do campo, empresária, donas de lar, guerreiras. Sabemos por relatos históricos e pela literatura, de uma mulher na Revolução Acreana, Angelina Gonçalves, que se destacou pela sua bravura. Depois da morte do marido ela enfrentou a tropa boliviana chegando a ferir um dos seus principais comandantes. Encontrei no Blog da minissérie "Amzônia, de Galvez a Chico Mendes", uma referência acerca deste fato. Confira... 

Obra de Rivas Plata

"ANGELINA foi a brava mulher de um seringueiro. Depois da batalha de Empreza, a tropa boliviana, passando pela casa onde morava, matou seu marido. ANGELINA virou leoa: armada de uma espingarda investiu sozinha contra a tropa e, mirando os soldados que a deixaram viúva, acertou o comandante ROJAS.

Enfurecidos, os soldados a arrastaram até o comandante, que se medicava dos ferimentos, gritando para justiçá-la ali mesmo. ROJAS tem um gesto nobre e cavalheiresco, que ficou registrado nos anais dessa guerra sangrenta.

- Soltai-a! Mulheres assim não se mata! Se Castro tiver em seu exército dez mulheres iguais a essa, conquista a Bolívia!"

ASSIM É A MULHER ACREANA, UMA VERDADEIRA GUERREIRA!


 

 

 

29.05.08

Quem são os verdadeiros selvagens?

Isaac Melo

 

      Por um acaso caiu em minhas mãos um exemplar da revista Veja (edição 2062 –ano41 –nº21, 28 de Maio, 2008), mesmo com nojo sair folheando algumas páginas e me deparei com a seguinte matéria “Um Golpe de Insensatez”; vi que dizia respeito ao “ataque” dos índios, ao engenheiro da Eletrobrás Paulo Fernando Rezende, no Pará.


      A reportagem começava assim: “as cenas de um grupo de selvagens amazônicos atacando...”, isso me causou um impacto. Fiquei pensando quando Cabral chegou ao Brasil e chamava de “selvagens” aqueles (os indígenas) que ele encontrou aqui, e não conheciam e não viviam conforme a dita “civilização” européia. Aquele momento foi o início de todas as desgraças aos povos indígenas e o gérmen da inveja e da prepotência capitalista-imperialista.


      Quem são os verdadeiros selvagens: os indígenas que lutam pelas suas terras e se vêem cada dia mais “impelidos” a dita civilidade ou o homem “branco civilizado” que com a pretensa civilizatória espolia, se apodera e destrói o habitat natural desses povos? O dono do lar, não tem direito de protegê-lo? Ressalto aqui, como qualquer outro que pensa e se diz cristão, sou contrário a qualquer forma de violência. Sou a favor da causa indígena, não de seus métodos que venha a ferir a integridade física e moral de seja quem for.


     O que tem me assustado é que os grandes veículos de comunicação tem se tornado cada dia mais sensacionalistas e conseqüentemente formadores de opiniões equivocadas. Uma imprensa que não é capaz de mostrar os dois lados da moeda. Uma imprensa que sempre pende para quem está no poder. Talvez a história desse país fosse diferente, se em vez da imprensa mostrar apenas os fatos, mostrasse a verdade.


      Agora esses filhotes do capitalismo em nome do dito “progresso” querem passar por cima de todos e de tudo para alcançarem os seus objetivos, nem que para isso exterminem a metade da população, em vista do conforto de um número mínimo de lacraios e usurpadores, que vivem a custa do suor e do sangue de tantos trabalhadores e “selvagens”. Não sou contra a globalização, o capitalismo ou o progresso desde que estes estejam a favor da vida e gerem riquezas e benefícios para todos e não para uma pequena parcela. É preciso dizer para o mundo que o progresso não é tudo. A vida está acima.


      A reportagem diz ainda que os índios (caiapós) são tradicionalmente agressivos. E por falar em agressividade o “homem civilizado” não fica atrás. Não se esqueça que os índios no Brasil já somaram mais de um milhão, hoje não passa de poucos milhares. Evaporaram-se? Os projéteis e facões da cobiça do homem branco trazem a resposta.


     Hoje quem defende indígenas, sem-terras, pequenos agricultores, pobres e explorados é tachado pela mídia burguesa como protetor de “vagabundos” e contra o desenvolvimento do país, esse sim é o golpe de insensatez. A Igreja Católica, por meio do Conselho Missionário Indigenista (CIMI) e da Pastoral da Terra, tem sofrido as mais diversas críticas e acusações ao se posicionar ao lado dos indígenas, dos mais pobres e oprimidos. No entanto, ela nunca sofreu uma crítica se quer por parte da burguesia, quando ela marcava mais presença na casa grande que na senzala em tempos atrás, isto é, quando estava mais atrelada aos interesses dos nobres e “senhores feudais” do Brasil, do que entre os escravos e oprimidos. Graças a Deus, a Igreja hoje começa a abrir os olhos e a denunciar sem medo aqueles que se posicionam contra a vida e a dignidade humana. Não calarão a voz da Igreja, sempre haverá profetas que denunciem a podridão e os sistemas de injustiças que mantêm grande parte dos filhos de Deus numa condição nem digna de ser chamada humana.


       Talvez o senhor Ronaldo Soares autor do texto vejista, faça parte do time dos hipócritas deste país, afinal de contas as terras indígenas que serão inundadas pela construção da hidrelétrica, será a garantia de que ele terá luz elétrica em sua casa, pois a desgraça dos indígenas, para ele significará a certeza de que terá luz amanhã para escrever, em seu escritório com ar-condicionado, seus artigos sobre os “selvagens”, do qual ele também está ajudando a “matá-los”.


      Por fim, posso dizer que nunca tive tanto sangue indígena como tenho neste momento, e nem só indígena, mas também o sangue dos negros discriminados, dos pobres espoliados, dos sem-terras “vagabundos”, das prostitutas exploradas; é neles que vejo a face de Cristo; d’Aquele que enfrentou a ira dos homens de sua época, para que fôssemos um povo de irmãos, e um reino de amor e partilha; d’Aquele que continua a morrer até hoje na pessoa do pobre e do sofredor que a cada dia são mortos e expulsos de suas terras; d’Aquele que continuar a padecer nas mãos dos novos fariseus e doutores da lei do século XXI ...

PAZ E GUERRA

Gibran K. Gibran


Três cães estavam se aquecendo ao sol e conversando. 


     O primeiro cão disse, como em sonho:


     - É, sem dúvida, maravilhoso viver nesta época do reinado dos cães. Observem com que facilidade navegamos sob o mar, sobre a terra e até no céu. E meditem um momento nas invenções realizadas para conforto dos cães, até mesmo para nossos olhos, ouvidos e narizes.


     E o segundo cão falou, e disse:


     - Estamos mais devotados às artes. Ladramos à lua com mais ritmo do que faziam nossos antepassados. E quando nos contemplamos a nós mesmos na água, vemos que nossas feições são mais claras do que as de outrora.


     Então, o terceiro cão falou, e disse:


     - Porém, o que mais me interessa e me diverte é o tranqüilo entendimento que existe entre os Estados caninos.


      Nesse exato momento, olharam e, oh!, vinha chegando o capturador de cachorros.


      Os três cães ergueram-se de um salto e safaram-se rua abaixo; e, enquanto iam correndo, o terceiro cão disse:


     - Pelo amor de Deus, corram para salvar suas vidas! A civilização está em nosso encalço.


(do livro: Parábolas / Gibran Khalil Gibran. Trad. Mansour Challita. Ed. Vecchi. Rio de Janeiro, 1972.)

28.05.08

De quem é a Amazônia, afinal? (Uma crítica)

Isaac Melo



       Como dizia o velho e bom Mark Twain em geral, leva-se mais de três semanas para preparar um bom discurso improvisado. E muito sucinto. É o que tentarei fazer aqui, sem, no entanto correr o risco de cair no senso comum.


       De quem é a Amazônia é a pergunta que nesses últimos tempos não quer calar. Que tanto o mundo tem perguntado e que tanto tem incomodado a Terra de Santa Cruz, vulgo Brasil. Apenas três equívocos irei observar.


       O primeiro equívoco é a própria pergunta. Em vez perguntar de quem é a Amazônia, deveríamos nos questionar como estamos cuidando da Amazônia. Parece algo tão simples, e é, mas não para alguns. Não devemos nos esquecer que o desmatamento na Amazônia não tem diminuído. Por quê? porque todos querem salvar a Amazônia, mas, no entanto ninguém faz nada. Corremos o risco de tornar a luta pela conservação da Amazônia um jogo político de interesses. Há “especialistas” em Amazônia, sem nunca terem pisado em solo amazônico, sem nunca terem ultrapassado os umbrais de seu escritório. Muito cuidado com os ecologISMOS mostrado pelas Vejas, Isto És e Globos da vida, abraçam a causa, mas são os primeiros a se beneficiarem dessa situação, os primeiros a ocultarem os fatos e verdades.


       O segundo equívoco diz respeito à forma como o problema está sendo encarado pelo governo brasileiro. O Brasil tem que sair da mediocridade e reconhecer que não tem conseguido ter ou manter uma política ambiental responsável. A Amazônia está sim sendo tragada e engolida pelas pastagens, monoculturas, etc., que é incentivo do próprio governo. Os outros países têm sim o direito de questionar (falei questionar) o Brasil no tangente à Amazônia, afinal de contas a Amazônia é nossa, mas ela, no entanto, mexe com a vida de todos do planeta. Não se deve pensar também que os estrangeiros representam uma ameaça para nós, uma vez que os maiores inimigos da Amazônia estão dentro do próprio Brasil, e aqui palmas para os madeireiros, latifundiários, fazendeiros, políticos... que estão querendo colocar os gringos e até os índios como bodes expiatórios, para encobrir suas podridões.


        E por fim, o último equívoco é a forma como estamos coisificando a Amazônia, isto é, tornando-a uma coisa, como estamos tornando-a um produto. Como o Brasil quer se tornar uma potência mundial tem que ter algo para isso, e ai entra a nossa tão maltratada e cobiçada Amazônia. Vejam que eles falam de “donos” da Amazônia. Tem linguagem mais comercial e capitalista do que essa!  


        Afinal de contas, em se tratando de malandragem não precisamos importar, pois a nossa maior safra no Brasil é de malandros, para todos os gostos e todas as situações...