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Para grande maioria dos jovens de Tarauacá, as mediações da serrarias onde se acumulam o pó das serragens, se constitui um verdadeiro ponto de encontro e de lazer, principalmente pelos jovens da classe mais baixa. As serrarias surgem principalmente como uma alternativa em épocas de cheias, onde já não tem as praias para aquela velha partida de futebol no final da tarde. As serrarias revelam também a falta de quadras na cidade e muitas vezes a inviabilidade do acesso de todos ao Ginásio de esportes.
Nas serrarias se faz de tudo: futebol, saltos mortais, as mais diversas brincadeiras e serve até de motel. Infelizmente hoje, as serrarias acabaram se tornando um sinal de perigo e já não são tão seguras como antes.
Mas ainda é um lugar de lazer para muitos, e um lugar que marcou a infância de tantos, como a minha. Por isso, faço esse registro aqui para a importância desse espaço, que muitos não conhecem, e que se constitui para tantos adolescentes e crianças o único lugar em que podem desfrutar do lazer livre e democraticamente, já que o estado e o município, nem sempre garantem esse direito constitucional.
Palmas para as serrarias!

criado por Isaac Melo
09:46:29
AS DUAS MOSCAS
PARTE I
Contam que certa vez duas moscas caíram num copo de leite. A primeira era forte e valente, assim logo ao cair nadou até a borda do copo, mas como a superfície era muito lisa e ela tinha suas asas molhadas, não conseguiu sair. Acreditando que não havia saída, a mosca desmaiou, parou de nadar e de se debater, afundou.
Sua companheira de infortúnio, apesar de não ser tão forte era tenaz, continuou a se debater e a se debater por tanto tempo, que, aos poucos o leite ao seu redor, com toda aquela agitação, foi se transformando e formou um pequeno módulo de manteiga, onde a mosca conseguiu, com muito esforço, subir e dali levantar vôo para algum lugar seguro.
Durante anos, ouvi essa primeira parte da história como um elogio à persistência, que, sem dúvida, é um hábito que nos leva ao sucesso, no entanto...
PARTE II
Tempos depois a mosca, por descuido ou acidente, novamente caiu no copo. Como já havia aprendido em sua experiência anterior, começou a se debater, na esperança de que, no devido tempo, se salvaria. Outra mosca, passando por ali e vendo a aflição da companheira de espécie, pousou na beira do copo e gritou:
“- Tem um canudo ali, nade até ele e suba pelo canudo!”.
A mosca tenaz não lhe deu ouvidos, baseando-se na sua experiência anterior de sucesso, continuou a se debater e a se debater, até que, exausta afundou no copo cheio... de água.
Quantos de nós, baseados em experiências anteriores, deixamos de notar as mudanças no ambiente e ficamos nos esforçando para alcançar os resultados esperados até que afundamos na nossa própria falta de visão. Fazemos isto quando não conseguimos ouvir aquilo que quem está de fora da situação nos aponta a solução mais eficaz e, assim perdemos a oportunidade de “reenquadrar” nossa experiência. Ficamos paralisados, presos aos velhos hábitos, com medo de errar.
Reenquadrar é permitir-se olhar a situação atual como se ela fosse inteiramente diferente de tudo que já vimos, é buscar ver através de novos ângulos, de forma a perceber que, fracasso ou sucesso, tudo pode ser encarado como aprendizagem.
“Essa história ouvir pela primeira vez contada pelo meu professor de Geografia, Francisco Figueiredo, na 7ª série, e sempre me recordo para lembrar que cada momento da vida, cada experiência é singular. Pode voltar a ser semelhante, mas nunca igual ao que foi. Isso nos permite que não nos fechemos em determinados pontos de vistas, e achá-los como prontos e acabados, mas sempre abertos para acolher o novo, pois a vida renova-se a cada dia.
O filósofo grego Heráclito afirmava que o homem nunca se banha no mesmo rio duas vezes, porque na segunda vez nem ele nem o rio são os mesmos. Tudo flui. Isso não quer dizer que a essência ou a personalidade do homem mude conforme a situação. Mas que o mundo e o ser humano passam por transformações externas e internas a cada momento, que tudo se renova, sem deixar de ser o que é. E quem não acompanha essa constante metamorfose, torna-se obsoleto, dogmático, por isso, não cresce. Há homens que morreram conhecendo apenas uma verdade: a sua verdade, e nela se fecharam. Nada garante que pelo o fato de eu ter tido várias experiências semelhantes no passado, me dêem a certeza de que acontecerão no futuro. Viver bem um dia, já é um grande desafio...”

criado por Isaac Melo
08:32:48Velha sociedade
Deitado numa velha cama
Com seu velho pijama
Há um velho homem
Com sua velha idade...
Espera o velho sono
Para fechar seus velhos olhos
Para mais uma velha noite
De velhas fadigas...
O velho dia amanhece
O velho acorda
Abre a velha janela...
E vê pela velha janela
A velha rua
A velha sociedade que o despreza...
TK/23.11.04
Em busca
Naquela nova cidade
Há um novo bairro
Com uma nova rua
Onde há uma nova casa.
Nessa nova casa
Há um novo quarto
Com um novo jovem
Que freqüenta uma nova escola.
Na nova escola
Ele tem novos amigos
Que têm novos livros.
Ele caminha na nova calçada
Com novos horizontes
Em busca da nova sociedade...
TK/23.11.04

criado por Isaac Melo
08:25:10
Nas peças do quebra-cabeça da Literatura Acreana que começam a se encaixar, Miguel Jeronymo Ferrante desponta como peça fundamental. Homem das letras e da magistratura legou para o Brasil, de forma especial para o Acre, grandes contribuições tanto no campo literário quanto do direito.
Dos seus quatro romances, um se sobressai como um verdadeiro clássico da literatura amazônica: Seringal (1972), seu primeiro livro que o lançará como escritor de projeção nacional. Sobre o Seringal Caio Porfírio Carneiro já dizia: “é o primeiro livro de Miguel Jeronymo Ferrante, mas já é obra madura, de inesgotáveis qualidades, e que se insere de imediato, na didática literária da região amazônica”. Estas palavras soaram como uma espécie de “profecia”, pela projeção que tomou o romance posteriormente. Assim como José Potyguara , Miguel Ferrante também morou em Tarauacá. Ele é pai da novelista Glória Perez.
Sobre o romance prefiro deixar Saulo Ferrante falar, no texto que está na orelha da 3ª. Edição do livro Seringal, re-lançado pela Editora Globo em 2007, em ocasião da minissérie “Amazônia: de Galvez a Chico Mendes”:
“Seringal descreve um mito de passagem. O universo da floresta amazônica do início do século XX é monumental e difuso, e o homem parece surgir com um detalhe cuja existência é menos necessária que contingente. Seu horizonte existencial, aliás, se confunde com os limites da própria floresta, da qual não é mais que uma remota expressão. E é dentro deste universo que ele migra da geografia para a história, como um rio amazônico se dirige para o mar. Neste percurso revela, ao mesmo tempo, a força do seu espírito e a dimensão trágica de seu destino.
Desde o início, a tensão emana desta floresta-universo – “contida, mas não vencida”. Este é o cenário de Seringal. É o pano de fundo de suas histórias de amor, de suas lutas políticas e da aventura humana pela subsistência e pela ocupação da terra. Neste cenário são gerados os atores sociais que, nas décadas seguintes, haverão de travar a luta que redesenhará o mapa político da região, conferindo-lhe um outro significado histórico e humano. Nela, a floresta arderá em chamas, mas a força moral do seringueiro saberá transformar as suas cinzas em combustível para a liberdade.
Quando Toinho ultrapassa os limites sociais que deveriam moldar sua existência, não há mais caminho de volta. Em completa solidão, como convém ao iniciado, começa a travessia. Não tem o testemunho, sequer, do olhar enlouquecido de uma mãe paralítica. Ampara-se num mundo onírico. Mas a metáfora de sua libertação não será expressa no seio de universos exóticos, como o mar da cor dos olhos de Paula.
Ela consistirá, ao contrário, no olhar para si mesmo, para o universo amazônico, na entrega absoluta de seu corpo e de sua alma ao seu próprio mundo. O estatuário e a cabeceira do rio se fundem numa mesma realidade, e Toinho toma a consciência do que representa, “como se nele se fundisse todo o sofrimento dos seringais”.
Alguns personagens deste romance existiram de fato, outros são ficcionais. A história mostrou que muitos de seus tipos humanos não sobreviveram ao século XX. Embora transitórios, foram essenciais para moldar o caráter do homem amazônico. Aí estão figuras da entrevada, padre José, dona Joana, dona Clara, Amâncio, Paula, coronel Fábio, Mané Lopes, Pedro Câmara. Elas se mesclam para compor o rosto de uma Amazônia que nos espreita e consola: exuberante, simples, generosa e bela.”
Seringal é uma obra que emociona ao mesmo que tempo nos revolta. Emociona porque fala da vida na sua simplicidade amazônica: calma e exuberante; revolta porque mostra o lado sombrio do homem: da exploração e opressão sobre os seus irmãos. Esta obra é imprescindível para a nova geração acreana, para os que ainda não conheceram o drama e o sofrimento daqueles que nos precederam e nos legaram este chão. Chão onde floresceu, regado pelo sangue e pelo suor, a brava gente acreana...
MIGUEL JERONYMO FERRANTE é natural de Rio Branco-AC, nasceu no dia 03 de Março de 1920, e faleceu em Brasília-DF, em 2001. Diplomado em 1945 pela Faculdade de Direito do Pará, culminou sua carreira de magistrado como ministro do Superior Tribunal de Justiça (STF). Romancista, novelista e cronista, é autor também de O Silêncio (1979), Festa de Natal (1982) e Sinal dos Tempos (1999), tendo colaborado em diversos jornais e revistas.
Referência bibliográfica
Ferrante, Miguel Jeronymo. Seringal; 3ª. ed. – São Paulo: Globo, 2007
--------------------------------------. Sinal dos Tempos; - Brasília: Letraviva, 1999.

criado por Isaac Melo
09:51:10É na simplicidade do dia a dia
Que a vida acontece:
Pura e simples
Como tem que ser!





















Assim também é Tarauacá!!!

criado por Isaac Melo
08:15:57