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Pe. Huberto, um ícone da Igreja Católica de Tarauacá

Era uma bela manhã de domingo do dia 02 de Abril de 2005.
Como todas as manhãs de Domingo, estava com a minha turma de catequizandos, quando fomos interrompidos por uma moça com o rosto melancólico: “A Ir. Nelda está pedindo para avisar que o Pe. Huberto acabou de morrer”. Era como se o mundo tivesse dado um giro de 360º sobre a minha cabeça. Despedi as crianças e me dirigi para a Igreja de São José. Ao chegar lá, já estava aquele aglomerado de pessoas entrando e saindo da casa paroquial. Enquanto isso ia passando um filme em minha mente acerca daquele que foi um dos mais zelosos pastores da Igreja de Tarauacá.
Aquele homem, Hubert Grossheim, chamado pela população de Pe. Huberto, que havia deixado a sua terra natal, Alemanha, e chegado ao Brasil em 1968, com destino à Amazônia havia cumprido a sua missão e deixado uma marca indelével no povo tarauacaense.
Pe. Huberto chegou em Tarauacá em 1974.
Desde então começou um árduo trabalho, juntamente com o seu companheiro Pe. Mathias Leven. Durante esses 31 anos, centenas de pessoas receberiam os mais diversos sacramentos e serviços pelas mãos de Pe. Huberto.

Não tem um caboclo nessas beiras de rio que não se recorde dele. Todos os anos subia os rios Murú e Tarauacá, realizando batismos, casamentos, orientação espiritual, distribuindo remédios e dando dicas de saúde e higiene básicas, e as mais diversas orientações.
A comunidade de cada seringal se reunia em festa, no dia em que Pe. Huberto marcava de chegar. E na hora marcada apontava a proa da canoa trazendo o reverendo, e diziam: “É o padre!”. Encostava a canoa, Pe. Huberto saltava dela e com os pés numa chuteira subia rumo ao barracão. Na sala se encontrava gente de todo o seringal. Servido o café ao reverendo então os começava os trabalhos. Ele batizando e seu fiel amigo Portela auxiliando na redação dos documentos. Sempre puxava uma conversa com as crianças, expressando carinho e ensinado-lhes a rezar. Alertava sempre a todos para terem todos os documentos de suas terras regularizadas para não correr nenhum risco de um dia perdê-las. É como se Pe. Huberto predisse o que hoje se sucede em muitos seringais. Assim o bom padre havia concluído todos os trabalhos se despedia do povo e retornava ao barco onde o bom timoneiro Mário, dando partida ao motor rumavam a outros seringais. E assim foi por cerca de trinta anos, esse mesmo ritual todos os anos, nas chamadas desobrigas.
Aquele momento era o único contato que muitos seringueiros, colonos e indígenas tinha com um religioso naquelas plagas. É por isso, que as margens do Tarauacá e do Murú hoje sentem tanto a falta de seu amigo e pastor, pois já não tem o cuidado e atenção daquele que os visitava todos os anos dando as mais diversas orientações.

Um dos únicos que era convidado pelos indígenas a entrar em suas aldeias e por todos era estimado. Teve sempre um grande carinho pela cidade do Jordão, onde lutou para construir uma pequena capela ali, também seu sonho de um dia construir uma nova, o que não chegou em vida a realizar.
Esteve sempre voltado mais para as questões sociais da Igreja e da comunidade tarauacaense, auxiliando e dando o seu apoio. Era alguém que se sentava à mesa com os ricos da mesma forma que acolhia os pobres. Durante esses anos Pe. Huberto sempre ajudou algumas pastorais e pessoas financeiramente, mas poucos sabiam disso e nunca fez questão de contar a ninguém.


Foi sobre seus cuidados que os jovens da Igreja de Tarauacá viveram um dos seus melhores momentos. Visitava os grupos, incentivava, levava lembranças, etc. A Igreja contava com a presença maciça nas celebrações dos jovens, que organizavam toda a missa.
Costumava visitar a maioria das escolas e todas as turmas de catequese. E qual era a criança que não se sentia alegre com aquela presença. E quem não sentiu também o peso de seu braço, com os socos que ele costumava distribuir em forma de brincadeira. De que doía, doía!
Era firme em suas decisões, sabia exercer a autoridade sem ser autoritário. Era um amigo. Um apoio. Um pai. Respeitado e estimado por todos os tarauacaenses, prova essa comprovada em seu velório, onde se encontrava diversas autoridades e membros de outras denominações religiosas.

Falar de Pe. Huberto, não é demagogia, nem tampouco saudosismo, mas é reconhecer o trabalho feito com amor durante os trinta e um anos que se dedicou à Tarauacá, terra que abraçou como sua e nela quis permanecer. Por amor a Deus, por amor ao povo aqui ficou de corpo e alma...


Túmulo de Pe. Hubert na Igreja Matriz de Tarauacá

Agradecimento ao Portela (TK) pelo envio de algumas fotos!
criado por Isaac Melo
08:41:34